As epilepsias constituem uma das situações mais angustiantes na prática neuropediátrica. Frequentemente, os pais deparam-se com uma situação absolutamente inédita, para a qual não têm ideia do que fazer e nem a quem recorrer. É angustiante também para o médico neuropediatra, uma vez que muitas vezes precisa contar com informações fornecidas por pais que nem sempre tiveram a oportunidade de presenciar o fato (às vezes, a crise ocorre no ambiente escolar, durante o sono, na casa de parentes, etc) ou que têm dificuldade em descrever objetivamente o episódio. É sempre válido pedir para o acompanhante imitar a crise e se possível incentivar a filmagem.
Um dos primeiros passos é saber se foi realmente uma crise. O diagnóstico de uma crise epiléptica é clínico e depende fundamentalmente de uma descrição acurada obtida com o paciente e acompanhantes que testemunharam. Os tópicos a seguir sugerem fortemente uma crise:
• Circunstâncias: privação de sono, drogadição, uso de medicamentos, estímulos incomuns (por exemplo: ocorreu enquanto a criança jogava videogame, durante uma festa com luzes intensas), história prévia de crises epilépticas ou febril, doenças neurológicas prévias;
• Durante o evento: é importante questionar ativamente o que ocorreu no início (comportamentos bizarros, movimentos rítmicos, automatismos como tiques de face ou membros, etc.), podendo revelar que uma determinada área do cérebro foi ativada. Um grito durante a crise, movimentos anormais, queda ao solo com postura enrijecida seguido de tremores, olhos semi-abertos, cianose labial (ficar com os lábios arroxeados), urinar ou defecar são indícios fortes.
• Após o evento: o paciente fica inconsciente, com respiração ruidosa (roncos), ou procura uma posição para dormir, ficando confuso por vários minutos e uma lenta recuperação da orientação e colaboração, como se estivesse em recuperação pós-anestésica.
Do ponto de vista geral, de 2% a 5% de todas as crianças saudáveis apresentarão pelo menos um episódio durante a infância. Mas, afinal, o que é uma crise? Infelizmente, muitos ainda pensam que a crise é decorrente de “duas veias que se encostam”, ou de estados psicológicos como ansiedade. Longe disso. É o resultado de uma descarga elétrica excessiva, súbita e geralmente auto-limitada de um grupo de neurônios e manifesta-se clinicamente de acordo com a região onde a descarga origina-se e sua propagação.
A ocorrência de uma crise epiléptica não necessariamente implica que a criança desenvolverá epilepsia. Diante de uma situação como essa, esqueça o que diz a crença popular e jamais tente abrir a boca da alguém que esteja tendo uma convulsão. Nunca tente puxar a língua da criança para fora, colocar uma colher para abrir a boca, etc. A orientação é virar a criança de lado para que ela não aspire vômito ou saliva, afastá-la de objetos cortantes e móveis, e, se possível, retire colares e óculos e proteja a cabeça com uma almofada, travesseiro ou algo macio. Não jogue água no rosto da pessoa, nem jogue a criança para cima, sacuda ou tente fazer respiração boca-a-boca.
É de extrema importância que a criança seja levada a um neurologista pediátrico. O profissional especializado irá avaliar e definir o quadro clínico e com todos os dados, ele será capaz de avaliar os melhores métodos de investigação e a melhor forma de tratamento.

